quarta-feira, 6 de dezembro de 2023

Amor?

 A apresentação do poema nº 85 de Carme di Catullo Numero feita hoje em aula, trouxe-me à mente o soneto ilustre de Camões - 

Amor é fogo que arde sem se ver,

É ferida que dói, e não se sente;

É um contentamento descontente,

É dor que desatina sem doer.


É um não querer mais que bem querer;

É um andar solitário entre a gente;

É nunca contentar-se de contente;

É um cuidar que ganha em se perder.


É querer estar preso por vontade;

É servir a quem vence, o vencedor;

É ter com quem nos mata, lealdade.


Mas como causar pode seu favor

Nos corações humanos amizade;

Se tão contrário a si é o mesmo Amor.


O pensamento de que o amor e o ódio são duas ideias opostas que não se complementam é contrariada nos dois poemas. A verdade é que as antíteses nos demonstram que um sentimento tão complexo e tão único como o amor é capaz de nos provocar um enorme prazer e uma abúlia profunda de uma forma simultânea. A natureza contraditória desta emoção faz com que seja difícil descrevê-la ou estabelecer um rótulo específico. O amor arde, mas não queima, dói mas não se sente. Pode ser triste e contente. Sinto que o amor, por vezes, pode ser elevado a uma patologia, há quem "morra de amores", há quem faça tudo por amor, no entanto por que razão fazemos tanto e nos deixamos mover por algo que não sabemos sequer descrever. Eu amo e sei que amo, é me suficiente, mas não deixa de me fazer sentir maluquinha esporadicamente. De uma forma mais elevada, ainda há quem odeie amar e há quem ame odiar. Que melhor complementariedade poderá existir?

O Amor pode ser tanto e tudo, pode ser sentido de todas as formas e maneiras possíveis, o que nos causa este obstáculo à compreensão. No fundo, acredito que o poema nº85, apesar de não nos dar respostas, é o que mais se aproxima de uma conceção do que é o amor, do que é amar.

Odeio e amo. Talvez queiras saber "como?"

Não sei. Só sei que sinto e crucifico-me. 




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