A apresentação do poema nº 85 de Carme di Catullo Numero feita hoje em aula, trouxe-me à mente o soneto ilustre de Camões -
Amor é fogo que arde sem se ver,
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente,
É dor que desatina sem doer.
É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que ganha em se perder.
É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata, lealdade.
Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade;
Se tão contrário a si é o mesmo Amor.
O pensamento de que o amor e o ódio são duas ideias opostas que não se complementam é contrariada nos dois poemas. A verdade é que as antíteses nos demonstram que um sentimento tão complexo e tão único como o amor é capaz de nos provocar um enorme prazer e uma abúlia profunda de uma forma simultânea. A natureza contraditória desta emoção faz com que seja difícil descrevê-la ou estabelecer um rótulo específico. O amor arde, mas não queima, dói mas não se sente. Pode ser triste e contente. Sinto que o amor, por vezes, pode ser elevado a uma patologia, há quem "morra de amores", há quem faça tudo por amor, no entanto por que razão fazemos tanto e nos deixamos mover por algo que não sabemos sequer descrever. Eu amo e sei que amo, é me suficiente, mas não deixa de me fazer sentir maluquinha esporadicamente. De uma forma mais elevada, ainda há quem odeie amar e há quem ame odiar. Que melhor complementariedade poderá existir?
O Amor pode ser tanto e tudo, pode ser sentido de todas as formas e maneiras possíveis, o que nos causa este obstáculo à compreensão. No fundo, acredito que o poema nº85, apesar de não nos dar respostas, é o que mais se aproxima de uma conceção do que é o amor, do que é amar.
Odeio e amo. Talvez queiras saber "como?"
Não sei. Só sei que sinto e crucifico-me.