segunda-feira, 23 de outubro de 2023

E por falar em pedras

 No meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

                                        Drummond de Andrade


Um interessantíssimo vídeo aqui. São 6'46'' que nos abrem janelas. Penso sempre naquele escritor do século XVIII que diz: «Peço desculpa por a carta ir tão longa, não tive tempo de a fazer mais breve.  

domingo, 22 de outubro de 2023

Banda Desenhada D.I.Y - "Okupar a Cidade" (feita por mim)

https://www.publico.pt/2023/03/16/p3/fotogaleria/eles-ocupam-casas-devolutas-lisboa-crise-habitacao-409926  

Falámos tanto em aula sobre banda desenhada que decidi fazer uma - "Okupar a cidade"!, inspirando-me nos graffitis espalhados pelas ruas de Lisboa, e na recente ocupação de uma casa na rua de Arroios (manifesto, aqui)

Aborda o tema da crise da habitação, que afeta o país de uma ponta à outra, nomeadamente nas grandes metrópoles, onde cada vez mais pessoas escolhem viver na rua devido às altas rendas, à especulação imobiliária, aos fundos estrangeiros (que representam 85% dos investimentos imobiliários), a senhorios que ameaçam despejar os seus inquilinos porque alugar a turistas é mais lucrativo, e a medidas governamentais que não servem as pessoas que nas cidades querem viver e trabalhar etc.

Com estas tiras o meu objetivo foi desmistificar as ocupações a casas devolutas, e demonstrar como as ações de ocupação em habitações incorporam novas formas de falar sobre os limites de como a propriedade e a habitação são distribuídas nos dias de hoje.

Ocupar é uma forma de sobrevivência; evita o estigma e a criminalização dos sem-abrigos e dá soberania às pessoas, que, de outro modo, estariam constantemente dependentes da caridade e de "meias-medidas" governamentais que pouco ou nada têm feito para mudar a atual crise.

Não dá para anexar pdf aqui, pelo que vai ter de ser um screen-shot com pouca qualidade :( 


Legenda: 

tira 1 - "Nós, as casas vazias, emparedadas, decrépitas, rodopiamos nas mãos invisíveis dos fundos de investimento, bancos e seguradoras e de outros fantasmas"

tira 2 - "Nas nossas cidades, a gentrificação e o urbanismo de mercado passeiam de mãos dadas, espezinhando a calçada manchada pela turistificação que despeja as pessoas aos poucos"

tira 3 - "Que déjà vu... Só mais uns fundos de investimento internacional por favor" *(like the old times of Troika, que saudades!)*

tira 4 - "Mas nas nossas paredes gritamos a voz daqueles que nas cidades querem habitar" "Casa é para morar, não para especular; e há tanta casa sem gente e tanta gente sem casa"

tira 5 - "Numa cidade que todos os dias nos expulsa, a única solução é a okupação"

tira 6 - "Porque o direito de possuir a propriedade de um imóvel vazio termina onde começa o direito das pessoas a existir"

tira 7 - "Se alimentação, vestuário, habitação e um planeta são necessidades básicas para a vida, tirá-los à força das pessoas é impedir a sua sobrevivência" "Qualquer ato de resistência é, por isso, legítima auto-defesa. Okupar é sobreviver"


quarta-feira, 11 de outubro de 2023

Pode uma crónica ser literatura? (TPC para 2ª 16/10)

 Os meus domingos


Aos domingos a seguir ao almoço visto o fato de treino roxo e verde e os sapatos de ténis azuis, a Fernanda veste o fato de treino roxo e verde e os sapatos de salto alto do casamento, subo o fecho éclair até ao pescoço e ponho o fio de ouro com a medalha por fora, a Fernanda sobe o fecho éclair até ao pescoço e põe os dois fios de ouro com a medalha e o colar da madrinha por fora, tiramos o Roberto Carlos do berço, metemos-lhe o laço de cetim branco na cabeça, saímos de Alverca, apanhamos os meus sogros em Santa Iria de Azóia e passamos o domingo no Centro Comercial.
A Fernanda senta-se atrás no Seat Ibiza, com o menino e a Dona Cinda, o senhor Borges ocupa o lugar ao meu lado, de Record no sovaco, fato completo, gravata de flores prateadas e chapéu tirolês, ajuda-me no estacionamento das Amoreiras a tirar o carrinho da mala e todos os automóveis do parque são Seat Ibiza, todos têm mantas alentejanas nos bancos, todos apresentam um autocolante no vidro que diz Não Me Siga Que Eu Ando Perdido, todos possuem uma rodela Vida Curta na guarda-lamas direito e uma rodela Vida Longa no guarda-lamas esquerdo, de todos os espelhos retrovisores se pendura o mesmo boneco de peluche, todos exibem junto à matrícula com o círculo de estrelinhas da Europa a mesma rapariga de Stetson e cabelo comprido, todos trouxeram o Record, os sogros e o filho, todos devem habitar em Alverca e todos circulam a tarde inteira no Centro de forma idêntica à nossa: adiante a Fernanda e a Dona Cinda, de raposas acrílicas, a coxear por causa de uma unha encravada, empurrando o Roberto Carlos que esperneia, desfeito num berreiro, com a chupeta pendurada da nuca por uma corrente e o Senhor Borges e eu vinte metros atrás, preocupados com a carreira do Olivais e Moscavide que perdeu em Alhandra apesar de ter comprado um avançado cabo-verdiano ao Arrentela e que em vez de jogar à bola leva as noites a mariscar tremoços na cervejaria, de brinco na orelha, no meio dos amigos pretos, com o tampo da mesa coberto de canecas vazias.
Como a Fernanda e a Dona Cinda param em todas as montras de móveis e boutiques a bisbilhotarem quinanes e kispos, acontece enganar-me e trocá-las por outra sogra acrílica, outra mulher roxa e verde e outra criança de laço, e sucede-me passar horas num banco, sem dar pela diferença, com uma Fátima e uma Dona Deta, a planear as prestações de um microondas e de um frigorífico novo, seguir para Alverca, jantar o frango da Casa de Pasto e a garrafa de Sagres do costume, e só na terça-feira, quando vou a sair para a Junta, a minha esposa informa, envergonhada, que mora em Loures ou na Bobadela, o Roberto Carlos se chama Bruno Miguel, e deu pelo engano, há cinco minutos, porque a minha Última Ceia é de estanho e a dela de bronze. Claro que corrigimos o erro no domingo seguinte, em que volto para casa com uma Celeste e um Marco Paulo no Seat, a que juntei (será o meu Seat Ibiza?) um novo autocolante que deseja Espero Não Te Conhecer Por Acidente.
Esta semana a minha mulher chama-se Milá, o meu filho Jorge Fernando e ando a pagar um apartamento em Rio de Mouro. Como esta sempre cozinha melhor do que as outras não faço tenções de voltar às Amoreiras. Se ela gostar de telenovelas só tornamos a sair daqui a muitos anos, quando o miúdo usar um fato de treino roxo e verde, eu encontrar no armario do quarto um casaco de raposas acrílicas e um chapéu tirolês, e escutar lá em baixo, a seguir ao almoço, a buzina do Seat Ibiza da minha nora. Como nessa altura devo andar a dieta de sal por causa da tensão qualquer peixe grelhado me serve.


in ANTUNES, António Lobo (1998). Livro de Crónicas. Lisboa: Publicações Dom Quixote. pp. 59-60

[recolhida aqui]

sexta-feira, 6 de outubro de 2023

Como pesquisar

  Halala ngosuku lokuzalwa, usuku lokuzalwa oluhle 🎉🎊🎂 💕

Uma amiga da África do Sul enviou-me isto há meses, pelo meu aniversário. Alguém consegue encontrar o significado?


terça-feira, 3 de outubro de 2023

Puzzle literário? É literatura como nunca vi


     Recentemente, um dos mais difíceis puzzles literários do mundo regressou para uma nova ronda de edições: A Mandíbula de Caim (Cain’s Jawbone) de Torquemada, cuja solução se julgou estar perdida desde os anos 30.

     O livro é composto por 100 páginas e contêm um grande mistério: seis assassinatos foram cometidos. À partida, parece simples: descobrir os seis assassinos e as seis vítimas. 

    Contudo, na sua edição original, lançada em 1934, o livro foi publicado com as páginas desordenadas (acredita-se que tenha sido devido a um erro no momento da impressão, ou então foi mesmo intencional – outro mistério em volta do livro). Assim, são milhões de combinações possíveis.

     Apenas com a ordem certa, o leitor/ detetive poderá descobrir os seis assassinos e as vítimas correspondentes.

     Quando o livro foi lançado pela primeira vez, a editora lançou um prémio monetário para quem conseguisse desvendar a ordem correta das páginas e solucionar o enigma. Apenas duas pessoas o fizeram.

     Desde essa altura, a solução do livro julgou-se perdida, até que, em 2019, foi recuperada por uma editora britânica, que decidiu relançar o livro, tornando-se, rapidamente, num fenómeno literário mundial.

     Durante o confinamento, o ator e comediante John Finnemore tornou-se na terceira pessoa (e última, por agora) a resolver o enigma.

     Como alguém que tentou desvendar a solução do livro, posso dizer que mesmo que me fossem concedidos três anos para me dedicar inteiramente à resolução deste puzzle literário, não julgo que a minha breve paciência estivesse à altura de tão grandioso desafio. 

     Este livro tem a capacidade de levar o leitor a questionar tudo; a procurar pistas onde não existem, desconstruindo frases, palavras, observando toda a estética da página, na esperança de que tenha uma mensagem secreta; a procurar novos significados nas frases aparentemente simples apresentadas; ao mesmo tempo, a tentar compreender as frases extremamente difíceis e que parecem não fazer sentido algum, uma vez que assim que o leitor começa a entender a página que está a ler, passa à seguinte e começa novamente do zero, pois não encontra um único elo de ligação. É como começar a ler um livro novo cada vez que viramos a página: a diferença é que não sabemos se estamos na página um, na catorze, na setenta e sete ou na cem…

     Quem é este? O que é que ele está aqui a fazer? Ele está à espera de quem? A que acontecimento é que ele se refere nesta página? – estas são apenas algumas das perguntas que nos entopem a cabeça; que não nos largam à noite, quando tentamos adormecer.

     A literatura deve desafiar-nos: posso dizer que nunca li livro mais desafiante. E o maior desafio é saber previamente que poderei nunca saber a solução… 

     Cuidado para quem quiser começar a ler este livro: não é fácil, poderemos nunca obter uma resposta, iremos gastar várias horas e corremos o risco de que ele nos leve à loucura. Posto isto, recomendo! Nunca pensei que uma leitura pudesse ser tão interativa. Senti-me verdadeiramente parte do livro: a minha personagem era o detetive.

     Deixo então o meu convite para que se atrevam a entrar nesta aventura e, quem sabe, juntar o vosso nome à pequena elite que desvendou este mistério e carrega o segredo da sua solução para todo o sempre.

     (Uma pequena informação adicional: A editora Lua de Papel, responsável pela publicação do livro em Portugal, está a oferecer mil euros a quem consiga solucionar o enigma até ao último dia deste ano. Mãos à obra, caros colegas. Boa sorte!)


Raquel Silva

segunda-feira, 2 de outubro de 2023

Uma curiosa livraria

 A Greta. Ainda não fui lá, embora nem seja longe de onde moro.

Atividade Cultural "Conta Um Conto!"


Quarta-feira, dia 4, juntem-se a nós numa tarde de leituras infantis, desde os contos mais enternecedores às maiores bizarrias que povoaram a nossa infância. Só precisam de levar um livro, ou mais se quiserem, tanto em papel ou digital. Se não tiverem não têm problema, há livros para todos!


Quino e a cultura

 


Notas finais

 Meus caros, estas são as notas que têm no fim do semestre, feitasas várias contas. Aguardarei até quinta para as lançar definitivamente. Qu...