terça-feira, 3 de outubro de 2023

Puzzle literário? É literatura como nunca vi


     Recentemente, um dos mais difíceis puzzles literários do mundo regressou para uma nova ronda de edições: A Mandíbula de Caim (Cain’s Jawbone) de Torquemada, cuja solução se julgou estar perdida desde os anos 30.

     O livro é composto por 100 páginas e contêm um grande mistério: seis assassinatos foram cometidos. À partida, parece simples: descobrir os seis assassinos e as seis vítimas. 

    Contudo, na sua edição original, lançada em 1934, o livro foi publicado com as páginas desordenadas (acredita-se que tenha sido devido a um erro no momento da impressão, ou então foi mesmo intencional – outro mistério em volta do livro). Assim, são milhões de combinações possíveis.

     Apenas com a ordem certa, o leitor/ detetive poderá descobrir os seis assassinos e as vítimas correspondentes.

     Quando o livro foi lançado pela primeira vez, a editora lançou um prémio monetário para quem conseguisse desvendar a ordem correta das páginas e solucionar o enigma. Apenas duas pessoas o fizeram.

     Desde essa altura, a solução do livro julgou-se perdida, até que, em 2019, foi recuperada por uma editora britânica, que decidiu relançar o livro, tornando-se, rapidamente, num fenómeno literário mundial.

     Durante o confinamento, o ator e comediante John Finnemore tornou-se na terceira pessoa (e última, por agora) a resolver o enigma.

     Como alguém que tentou desvendar a solução do livro, posso dizer que mesmo que me fossem concedidos três anos para me dedicar inteiramente à resolução deste puzzle literário, não julgo que a minha breve paciência estivesse à altura de tão grandioso desafio. 

     Este livro tem a capacidade de levar o leitor a questionar tudo; a procurar pistas onde não existem, desconstruindo frases, palavras, observando toda a estética da página, na esperança de que tenha uma mensagem secreta; a procurar novos significados nas frases aparentemente simples apresentadas; ao mesmo tempo, a tentar compreender as frases extremamente difíceis e que parecem não fazer sentido algum, uma vez que assim que o leitor começa a entender a página que está a ler, passa à seguinte e começa novamente do zero, pois não encontra um único elo de ligação. É como começar a ler um livro novo cada vez que viramos a página: a diferença é que não sabemos se estamos na página um, na catorze, na setenta e sete ou na cem…

     Quem é este? O que é que ele está aqui a fazer? Ele está à espera de quem? A que acontecimento é que ele se refere nesta página? – estas são apenas algumas das perguntas que nos entopem a cabeça; que não nos largam à noite, quando tentamos adormecer.

     A literatura deve desafiar-nos: posso dizer que nunca li livro mais desafiante. E o maior desafio é saber previamente que poderei nunca saber a solução… 

     Cuidado para quem quiser começar a ler este livro: não é fácil, poderemos nunca obter uma resposta, iremos gastar várias horas e corremos o risco de que ele nos leve à loucura. Posto isto, recomendo! Nunca pensei que uma leitura pudesse ser tão interativa. Senti-me verdadeiramente parte do livro: a minha personagem era o detetive.

     Deixo então o meu convite para que se atrevam a entrar nesta aventura e, quem sabe, juntar o vosso nome à pequena elite que desvendou este mistério e carrega o segredo da sua solução para todo o sempre.

     (Uma pequena informação adicional: A editora Lua de Papel, responsável pela publicação do livro em Portugal, está a oferecer mil euros a quem consiga solucionar o enigma até ao último dia deste ano. Mãos à obra, caros colegas. Boa sorte!)


Raquel Silva

Sem comentários:

Enviar um comentário

Notas finais

 Meus caros, estas são as notas que têm no fim do semestre, feitasas várias contas. Aguardarei até quinta para as lançar definitivamente. Qu...