domingo, 17 de setembro de 2023

Comunidade – Luiz Pacheco

 

O estilo por vezes agramatical, carregado de enumerações e pontuação inusitada demonstra a preocupação de Pacheco, que concerne à criação de uma marca estilística encerrada pelo Surrealismo. O autor reflete acerca da vida e da falta dela. E para isso parte de uma cama, ou melhor, de uma jangada. Apresenta-se rodeado de presenças vividamente pulsantes, todavia, tudo o que o povoa são manifestações de uma ausência desenfreada sem nome. Questiona o intrometimento das garras da morte na existência de uma condição humana, ou de inúmeras, neste caso. A aceitação da inexorabilidade da morte é, portanto, para este, suficiente para poder ponderar acerca da preponderância que é estar e sentir-se envolto na vida familiar, apesar do medo vertiginoso que se pode ter do desenlace derradeiro desta mesma condição. É, acima de tudo, um pai e um homem encapsulado no seu exercício falível de existência. A sonolência emanada por esta cama e a mesmidade subjacente a este repouso nada têm a esconder, revelando-se num nível de intimidade e descoberta dos corpos que se deitam ao seu lado, juntamente com o seu próprio, no seu leito, mas sem realmente o descobrir, porque a mulher e as crianças desconhecem o homem que se encosta a elas, estranham as suas preocupações, desejos e convicções, independentemente das suas ingenuidades intrínsecas às tenras idades. Pacheco escreve pelo gozo de estar no seu domínio de ação contrariar o escuro que em breve se lhe afronta a passos largos. Quando a escuridão consumir o seu corpo e o envolver com os seus fragmentos da não-luz será, enfim, o mesmo momento em que se entregará igualmente à mesma. Esta ignobilidade da solidão só pode ser sentida quando contém em si a condição de se estar acompanhado – a natureza paradoxal da própria, que o permite estar rodeado e confortado pelos ternos braços da obscuridade e dos filhos e, mesmo assim, experienciar um toque, um repique ruidoso em todos os membros e órgãos e vísceras, porque contaminado pela mesma solidão. Em última análise, achei pertinente esta sugestão de leitura, dado que é um texto que supera a sua circunstância, um etéreo do mesmo, transportando consigo algo de enternecedor no repouso dos corpos, na sua solidão conjunta, na inércia inerente a uma cama partilhada.

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Notas finais

 Meus caros, estas são as notas que têm no fim do semestre, feitasas várias contas. Aguardarei até quinta para as lançar definitivamente. Qu...